
O acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul pode representar um divisor de águas para produtores de feijão, pulses, colheitas especiais e irrigantes de Mato Grosso, desde que o setor esteja preparado para atender às exigências do mercado europeu. A avaliação é da Associação dos Produtores de Feijão, Pulses, Colheitas Especiais e Irrigantes de Mato Grosso (Aprofir), que analisou os impactos do tratado sob a ótica de quem produz no campo.
Para o presidente da entidade, Hugo Garcia, o acordo não deve ser visto como um benefício automático, mas como uma chance concreta de reposicionar parte da produção mato-grossense no cenário internacional. “Esse acordo não é uma porta aberta para todos, ele funciona como um filtro. Quem estiver organizado, tecnificado e com gestão vai conseguir acessar um mercado premium. Quem não estiver preparado vai ficar para trás”, afirmou.
Segundo a Aprofir, diferentemente das grandes commodities, os efeitos do acordo para esses segmentos são seletivos. No caso dos produtores de feijão e pulses, como lentilha, grão-de-bico, ervilha e feijões especiais, a União Europeia se apresenta como um mercado importador relevante, com demanda crescente por alimentos ligados à alimentação saudável e a dietas vegetarianas. Produtos diferenciados, orgânicos e rastreados tendem a alcançar preços superiores aos do mercado interno.
Conforme Hugo Garcia, esse cenário abre espaço para diversificação e agregação de valor, mas exige mudança de mentalidade. “O produtor precisa entender que não se trata apenas de produzir mais, e sim de produzir melhor. O mercado europeu paga por qualidade, regularidade e comprovação de origem”, disse.
Riscos
A entidade também alerta para os riscos. O acesso ao mercado europeu impõe rigor sanitário e fitossanitário elevado, com controle de resíduos, micotoxinas, padronização e uniformidade dos lotes. Além disso, o Brasil enfrenta concorrência direta de países como Canadá, Índia e nações do Leste Europeu, já consolidados nesse mercado.
No segmento de colheitas especiais, como sementes, grãos diferenciados e culturas alternativas, a Aprofir avalia que o acordo cria oportunidades mais claras. O mercado europeu valoriza produtos como quinoa, chia, sementes especiais e grãos não transgênicos, geralmente comercializados por meio de contratos antecipados, com menor volatilidade de preços. Em contrapartida, há exigência de escala, padronização e certificações, o que demanda investimento e profissionalização.
Para os irrigantes, a leitura da entidade é ainda mais direta. Produtores regularizados e tecnificados ganham vantagem competitiva, já que a irrigação garante oferta contínua, qualidade e múltiplas safras, exatamente o perfil exigido pelo mercado europeu. “A irrigação bem feita passa a ser um diferencial, mas a informalidade tende a virar um problema. Sem outorga e sem gestão ambiental, o produtor perde competitividade”, alertou o presidente da Aprofir.
“É uma oportunidade real para quem planeja, se organiza e investe. O acordo premia gestão, sustentabilidade e visão de longo prazo”, concluiu Hugo Garcia.